Resumo: Dr. Francisco Tancredi é psiquiatra com mais de trinta anos de carreira clínica, autodidata em cogumelos medicinais muito antes do tema virar pauta. Cofundador da Fungipharm, é a voz mais sênior do grupo. Conversamos com ele sobre a longa transição da experiência clínica empírica para a ciência atual.

Como você chegou aos cogumelos medicinais?

“Foi por uma curiosidade clínica nos anos noventa. Eu acompanhava pacientes psiquiátricos com queixas cognitivas — declínio leve, dificuldade de concentração, perda de memória inicial. Em conversas com colegas que trabalhavam com medicina integrativa, ouvi pela primeira vez o uso tradicional de cogumelos asiáticos para o que eles chamavam de ‘tônico cerebral’. Achei curioso. Comecei a ler.”

“Não havia praticamente literatura científica ocidental sobre o tema naquela época. O que existia vinha em japonês, em chinês, em alguns artigos isolados de medicina alternativa europeia. Mas o uso clínico de várias dessas tradições passava de geração em geração há séculos. Algo merecia investigação.”

O que você viu mudar na ciência ocidental?

“A virada foi gradual. Nos anos 2000, começaram a aparecer estudos sérios em Universidades japonesas e americanas — Kawagishi no Japão foi pioneiro em hericenonas. Comecei a guardar referências. Foi quando ficou claro que aquilo que parecia folclore era, na verdade, pesquisa biológica que ainda não tinha sido bem feita no Ocidente.”

“A partir de 2010, a literatura cresceu rapidamente. PubMed mostra a curva: número de publicações sobre Hericium erinaceus dobrou várias vezes na última década. Bioativos como erinacinas, hericenonas, beta-glucanas foram caracterizados quimicamente. Modelos animais começaram a confirmar efeitos descritos clinicamente há séculos. Não inventaram cogumelo medicinal — confirmaram com método o que já se sabia empiricamente.”

Como você se posicionou nesse cenário em movimento?

“Com cautela. Sempre fui clínico tradicional, formado em escola convencional. Não me converti em ‘médico integrativo’ — continuei psiquiatra. Mas passei a incorporar cogumelo medicinal como parte do toolkit, com pacientes selecionados, sob orientação cuidadosa. Sempre como complemento, nunca como substituição de tratamento estabelecido.”

“Quando o Felipe começou a trabalhar com cogumelo no laboratório, achei coerência da história. Ele tem a formação científica que faltava na conversa — neurociência, modelos animais, leitura técnica de paper. Junto, fechamos um arco: clínica de mais de trinta anos + ciência básica + indústria padronizada.”

O que o público brasileiro ainda precisa entender?

“Que cogumelo medicinal não é panaceia. Esse é o primeiro ponto. Não cura, não substitui medicamento, não dispensa o veterinário ou o médico. É ingrediente funcional sério, com base científica que cresceu muito nos últimos vinte anos, e com história tradicional que precede a ciência ocidental por séculos. Lugar de cuidado complementar — não de promessa terapêutica.”

“O segundo ponto é qualidade. Cogumelo medicinal sério exige cadeia produtiva controlada, padronização industrial, validação por método. A maior parte do que circula no mercado brasileiro ainda é produto de qualidade muito variável. Quando uma empresa abre os números — concentração de bioativos, registro regulatório, parceria com universidade — ela está fazendo certo. Quando esconde, vale desconfiar.”

O que vem pela frente?

“Ensaios clínicos veterinários com pet brasileiro, em condições brasileiras. Esse é o próximo passo natural. Pré-clínica nós temos — Unicamp confirmou aumento de BDNF com nosso extrato em modelo animal. Estudo clínico em pet com condição diagnosticada é o próximo capítulo. Várias universidades brasileiras já têm interesse.”

“Também tem o pipeline de outras espécies. Cogumelo medicinal não é só juba de leão. Reishi, cordyceps, turkey tail, maitake — cada um com seu perfil bioativo, sua janela de aplicação. O futuro da nossa indústria é diversificar, sempre com a mesma régua de qualidade industrial e respeito ao status regulatório.”