Resumo: O primeiro registro MAPA brasileiro para extrato de juba de leão em produtos pet (julho de 2025) não saiu de uma decisão única. Saiu da convergência de quatro trajetórias profissionais — Felipe Tancredi, Dra. Ângela Vanelli, Dr. Francisco Tancredi e André Bragard. A história contada pelos próprios.

A convergência de quatro caminhos

Em julho de 2025, a Fungipharm registrou junto ao MAPA o primeiro extrato de juba de leão (Hericium erinaceus) brasileiro para uso em produtos pet. Foi um marco regulatório isolado no Brasil — e segue sendo o único registro desse tipo no país.

Mas atrás do papel oficial, há uma história de mais de uma década. Quatro pessoas com formações distintas, vindas de contextos diferentes, convergiram em torno de um objetivo comum: trazer a ciência do cogumelo medicinal brasileiro do laboratório ao mercado, com padrão industrial e respaldo regulatório.

Este texto conta essa convergência.

Felipe Tancredi: a leitura científica

Felipe é neurocientista de formação. PhD em Ciências Biomédicas pela Université de Montréal, com foco em envelhecimento cerebral e doença de Alzheimer. Foi durante os anos de doutorado e pós-doutorado — debruçado sobre literatura de neurodegeneração — que ele começou a notar uma onda crescente de publicações sobre cogumelos do gênero Hericium, especialmente o juba de leão.

“Eu lia esses papers de um ângulo bem específico”, ele lembra. “Erinacinas e hericenonas, modelos de cultura neural, fatores neurotróficos sendo modulados. Não era promessa terapêutica — era pesquisa básica de qualidade, em revistas indexadas. Aquilo precisava chegar ao Brasil de forma estruturada.”

Quando voltou ao país, a família já cultivava cogumelos. A Altavilla operava desde 2014 em São Roque (SP), inicialmente com shiitake. A possibilidade de juntar formação acadêmica com a operação familiar tornou inevitável o que veio depois: a fundação da Fungipharm em 2018, dedicada ao desenvolvimento de extratos padronizados.

Dra. Ângela Vanelli: o rigor industrial

“Não dá pra fazer ciência sem controle de qualidade. E não dá pra fazer indústria farmacêutica sem método validado.” Essa é a frase que Ângela costuma repetir.

Ângela é cofundadora da Fungipharm. Doutora em Ciências Animais pela Université Laval (Canadá), com mais de vinte anos de carreira em tecnologia de alimentos. Trouxe ao grupo o lado industrial que faltava — protocolos de boas práticas, validação de método HPLC, controle microbiológico, estabilidade de produto, documentação técnica para fins regulatórios.

Foi sob a coordenação dela que a Fungipharm desenvolveu internamente a metodologia de quantificação dos bioativos do juba de leão por HPLC, com marcadores próprios de controle de qualidade (ergosterol + picos de erinacinas e hericenonas). Análises comparativas com mais de doze amostras do mercado brasileiro mostraram, em diferentes momentos, concentração 8 a 10 vezes maior de bioativos no extrato Fungipharm em relação ao melhor concorrente nacional.

“Esse número não é marketing. É HPLC, é cromatograma. A maior parte dos extratos disponíveis no Brasil não tem picos detectáveis dessas moléculas. O nosso tem, e isso é mensurável.”

Dr. Francisco Tancredi: a clínica e a tradição

Francisco é cofundador da Fungipharm. Psiquiatra com mais de trinta anos de carreira clínica, autodidata em cogumelos medicinais muito antes do tema virar pauta. “Eu acompanhei cogumelo medicinal no consultório desde os anos 90, em conversa com colegas que trabalhavam com medicina integrativa. Sempre achei que havia algo ali — mas faltava a indústria séria para validar.”

É a voz mais experiente do grupo, e tem um papel particular: trazer o lado clínico-tradicional, que conversa com mais de mil anos de uso documentado dos cogumelos medicinais em medicinas asiáticas. “A ciência ocidental está validando, agora com método, o que outras tradições observaram empiricamente por séculos. É um momento bonito da história — quando rigor laboratorial e sabedoria milenar começam a falar a mesma língua.”

André Bragard: o canal e a confiança

Os Laboratórios Duprat são referência nacional em suplementos e medicamentos veterinários. Empresa familiar tradicional, com presença consolidada no canal veterinário brasileiro. André Bragard, à frente da Duprat, foi o parceiro que viabilizou a entrada da Fungipharm no segmento pet — não só por capilaridade comercial, mas por confiar na qualidade do extrato.

“Conheci a Fungipharm quando o produto ainda estava em fase de desenvolvimento avançado. O que me convenceu foi o nível técnico do laboratório — controle de qualidade, padronização, transparência completa. Quando uma empresa abre os números dela com essa clareza, você sabe que está tratando com gente séria.”

Foi essa parceria que abriu o caminho para a entrada formal do extrato no mercado pet brasileiro — Duprat com seu canal estabelecido, Fungipharm com o ingrediente. O registro MAPA foi o passo natural seguinte.

A jornada do registro

O processo de registro junto ao MAPA não é uma formalidade. Envolve documentação técnica robusta, laudos de análise, comprovação de boas práticas de fabricação, rastreabilidade completa da cadeia produtiva (da matéria-prima ao produto final), comprovação de segurança e procedência.

A Fungipharm percorreu esse caminho com a Duprat ao longo de meses. O extrato foi classificado como ingrediente alimentar (IN 110/2020), status regulatório apropriado para o uso pretendido. Em julho de 2025, o registro saiu.

“Não foi um dia de celebração explosiva”, lembra Felipe. “Foi mais um alívio coletivo. A gente sabia há meses que estava chegando, e quando saiu, foi mais uma sensação de ‘pronto, agora a porta está aberta para o que vinha sendo construído’.”

O que esse marco significa

Do ponto de vista prático, o registro abriu duas portas. A primeira: legalmente, é possível comercializar produtos pet contendo o extrato no Brasil, com rastreabilidade industrial e padronização. A segunda: comercialmente, faz sentido criar uma marca dedicada ao mercado pet — porque ele agora existe, formalmente, para essa categoria.

É no contexto dessa segunda porta que nasce, em 2025, a PetPharm. Marca brasileira de moda e saúde pet, com a Fungipharm como laboratório fornecedor oficial dos seus nutracêuticos. Lifestyle premium, com lastro científico real por trás.

O caminho até aqui foi feito por quatro pessoas com trajetórias diferentes que se encontraram em torno de uma intuição comum — e que tiveram a paciência institucional de fazer cada etapa direito. Pesquisa primeiro. Padronização industrial. Validação clínica. Parceria comercial. Registro regulatório. Marca consumer.

Não é a forma mais rápida. Mas, no caso de cogumelos medicinais, é a forma certa.