Resumo: Dra. Ângela Vanelli é cofundadora da Fungipharm, doutora em Ciências Animais pela Université Laval, com mais de 20 anos em tecnologia de alimentos. Trouxe ao grupo o rigor industrial que faltava. Conversamos sobre o que é controle de qualidade aplicado a cogumelos medicinais — e por que esse detalhe muda tudo.
O que te levou pra tecnologia de alimentos?
“Eu queria entender o que estava no que a gente come. Sempre tive curiosidade pelos processos — como o leite vira queijo, como o cogumelo seco vira extrato, como uma molécula sai do campo e chega ao prato. Fui pra graduação em Ciências Animais com essa lente, depois fiz mestrado e doutorado na Université Laval, no Canadá. Lá aprendi método. Aprendi que sem padronização não tem indústria séria.”
“Quando voltei pro Brasil, trabalhei em consultoria e em desenvolvimento de produto pra várias empresas do setor alimentício. Fui acumulando experiência prática com o que separa empresa que entrega qualidade consistente de empresa que entrega qualidade variável.”
Como você entrou na Fungipharm?
“Em 2018, conversando com o Felipe sobre o projeto que ele tinha em mente. Ficou claro que faltava na proposta um eixo industrial sério — método de extração validado, controle de qualidade laboratorial, documentação técnica. Eu trouxe esse eixo. Não fui contratada — fui cofundar.”
“Eram anos de trabalho pela frente. Não dava pra fazer pesquisa de qualidade industrial e bater na porta do MAPA sem ter os métodos validados, os protocolos de controle, a documentação técnica robusta. Cada um desses degraus tomou tempo. Hoje, tudo isso está cravado.”
O que muda quando uma empresa de cogumelo tem método validado por HPLC?
“Muda tudo. Sem método de quantificação rigoroso, você está vendendo cogumelo numa caixinha — não está vendendo um ingrediente padronizado. Pode ter muito bioativo, pode ter pouco, pode ter zero. Você não sabe — e o tutor que recebe o produto também não sabe.”
“O método HPLC que desenvolvemos internamente para o juba de leão usa marcadores específicos — ergosterol (componente da parede celular do cogumelo, indicador de presença real do fungo) e picos cromatográficos das erinacinas e hericenonas (os bioativos de interesse). Cada lote passa por essa caracterização. Resultado: sabemos exatamente o que estamos entregando.”
“Quando publicamos publicamente que nosso extrato tem 8 a 10 vezes mais bioativos que o melhor concorrente brasileiro, isso vem desse número. É HPLC. Não é marketing. Análises de 12 amostras do mercado, comparadas ao nosso extrato. A maior parte dos concorrentes não apresentou picos detectáveis de erinacinas e hericenonas. O nosso, sim — e na concentração documentada.”
Como funciona o controle de qualidade no dia a dia?
“Cada lote produzido passa pelo laboratório. Análise microbiológica completa — contagem total, patógenos específicos. Análise físico-química — umidade, atividade de água, perfil cromatográfico. Análise de pureza — ausência de contaminantes orgânicos, metais pesados. Tudo documentado, com rastreabilidade total ao lote da matéria-prima original.”
“Também fazemos estudos de estabilidade ao longo do tempo, em diferentes condições de armazenamento. O extrato precisa manter suas características bioativas durante a vida útil do produto. Sem esse trabalho, não temos como garantir que o produto que sai da fábrica em janeiro tem o mesmo perfil em dezembro.”
Por que esse rigor importa pro tutor final?
“Porque o tutor está comprando confiança. Quando ele oferece um nutracêutico ao pet, ele está depositando confiança em uma cadeia inteira de decisões. Da seleção do cogumelo no cultivo, da extração industrial, do controle laboratorial, da formulação final. Se qualquer dessas etapas falha, o produto não entrega o que promete — e a confiança quebra.”
“O rigor industrial não é detalhe técnico. É a base ética da empresa. Você cobra premium pelo produto porque entrega qualidade premium, validada por método. Sem essa equação, é só marketing — e marketing sem produto sério não sustenta uma marca.”
O que vem pela frente?
“Mais espécies no pipeline, mais método sendo desenvolvido. Cada espécie de cogumelo medicinal tem perfil bioativo próprio, e cada um precisa do seu próprio protocolo de extração e de controle. Estamos trabalhando em três espécies novas em paralelo. Não vamos liberar antes de cada uma estar com o método cravado.”
“E mais estudos. Pré-clínica nós já temos — Unicamp confirmou aumento de BDNF com nosso extrato em modelo animal. Próximo passo são estudos clínicos veterinários. Tem várias universidades brasileiras com interesse — só precisamos da disponibilidade interna pra apoiar.”